Tendências Globais em Proteção ao Denunciante

A proteção ao denunciante tem ganhado crescente relevância no cenário global, à medida que governos e organizações reconhecem a importância de incentivar a denúncia de irregularidades e proteger aqueles que se dispõem a revelar práticas ilícitas ou prejudiciais.

Este artigo examina as legislações que tratam da proteção ao denunciante ao redor do mundo, identificando as melhores práticas, desafios enfrentados e apresentando estudos de caso de diferentes jurisdições por forma a percebermos um pouco as tendências globais em proteção ao denunciante.

O papel do denunciante

Denunciantes são indivíduos que reportam condutas impróprias, fraudes, corrupção, violações de leis ou mesmo regulamentos internos, entre outros.

São fundamentais para a transparência e a accountability (~responsabilização) em diversos setores, desde o setor público até grandes corporações privadas.

No entanto, um dos maiores obstáculos para que as pessoas se sintam à vontade para denunciar é o medo de retaliação, que pode vir de diferentes formas, como demissão, assédio moral ou até mesmo agressões físicas.

Proteção ao denunciante: panorama global

Nos últimos anos, diversos países têm reconhecido a importância de uma legislação robusta para proteger os denunciantes.

No entanto, as abordagens variam significativamente entre as jurisdições, com algumas regiões estabelecendo modelos mais completos e eficazes do que outras.

  • Estados Unidos

Os EUA são amplamente considerados um dos líderes globais na proteção ao denunciante, especialmente devido à Lei de Reivindicações Falsas (False Claims Act) e ao Dodd-Frank Act.

A primeira, promulgada em 1863, tem sido utilizada para combater fraudes contra o governo federal, oferecendo recompensas financeiras a denunciantes que tragam informações sobre práticas fraudulentas.

Já o Dodd-Frank Act, de 2010, foca no setor financeiro e oferece fortes mecanismos de proteção e incentivo, incluindo um programa de recompensas gerido pela Comissão de Valores Mobiliários (SEC).

Estudos de caso nos EUA mostram que programas de incentivo financeiro, quando bem estruturados, podem ser eficazes em atrair denúncias.

Em 2022, a SEC distribuiu cerca de 229 milhões de dólares em recompensas a denunciantes que contribuíram com informações relevantes para investigações de fraudes.

  • União Europeia

A União Europeia, com a sua Diretiva de Proteção aos Denunciantes (Diretiva (UE) 2019/1937), estabeleceu um marco importante para os seus estados-membros.

A diretiva exige que as empresas e instituições públicas com mais de 50 funcionários estabeleçam canais seguros e confidenciais para denúncias.

Ela cobre uma ampla gama de áreas, incluindo contratos públicos, serviços financeiros, saúde pública e segurança de produtos.

Apesar de ser uma iniciativa robusta, a implementação da diretiva ainda enfrenta desafios significativos, principalmente em termos de harmonização entre os diferentes sistemas legais dos estados-membros.

Alguns países, como França e Suécia, já tinham sistemas avançados de proteção, enquanto outros, como a Grécia e a Bulgária, precisaram iniciar as suas regulamentações praticamente do zero.

Este descompasso cria um cenário onde a proteção pode variar consideravelmente dentro do bloco.

  • Austrália

A Austrália fez revisão às suas leis de proteção ao denunciante em 2019, com a implementação do Treasury Laws Amendment (Enhancing Whistleblower Protections) Act 2019.

Esta legislação abrange uma vasta gama de setores, e um dos seus pontos centrais é a proibição de retaliação contra o denunciante.

Além disso, os denunciantes podem recorrer a mecanismos judiciais caso as suas queixas não sejam adequadamente investigadas.

Contudo, um dos desafios apontados na Austrália é a consciencialização insuficiente entre trabalhadores e empresas.

Mesmo com a existência de legislação protetiva, muitos ainda não têm conhecimento adequado sobre os seus direitos ou obrigações, o que pode limitar a eficácia dessas proteções.

  • Brasil

No Brasil, a Lei de Combate à Corrupção (Lei nº 12.846/2013), também conhecida como Lei Anticorrupção, criou um ambiente mais favorável à proteção do denunciante, especialmente no que diz respeito ao combate a práticas corruptas no setor público e privado.

A partir de 2019, com a aprovação da Lei de Proteção ao Denunciante (Lei nº 13.608/2018), o Brasil começou a fortalecer a proteção dos denunciantes, exigindo a criação de canais de denúncia em órgãos públicos e assegurando a proteção contra retaliações.

No entanto, desafios significativos permanecem.

Estudos de caso em empresas brasileiras apontam para uma falta de confiança nos canais internos de denúncia, com muitos funcionários a optar por permanecer em silêncio devido ao medo de represálias, mesmo com a legislação vigente.

Isso destaca a necessidade de implementar melhor os mecanismos de denúncia e proteção para garantir a eficácia das leis.

  • África do Sul

A África do Sul possui a Lei de Proteção ao Denunciante (Protected Disclosures Act, 2000), que é um dos pilares do sistema de combate à corrupção no país.

A legislação permite que funcionários do setor público e privado façam denúncias de forma anônima e protege os trabalhadores contra retaliações.

O país também criou órgãos de supervisão, como a Unidade de Investigações Especiais (SIU), que lida diretamente com denúncias de corrupção.

Apesar disso, o país enfrenta desafios significativos na aplicação eficaz da lei.

Casos de denúncias mal geridas, onde o denunciante acabou sendo alvo de intimidações, são recorrentes.

Isso levanta questões sobre a implementação adequada das proteções prometidas pela legislação.

Desafios comuns na implementação das legislações

Apesar dos avanços na criação de legislações protetivas, a implementação e a supervisão destas leis apresentam desafios em várias partes do mundo.

  • Medo de retaliação

Mesmo em países com proteções legais robustas, o medo de retaliação ainda é um dos maiores desafios para os denunciantes.

Estudos de caso mostram que, em muitas situações, os denunciantes enfrentam desde demissões a perseguições judiciais e sociais, especialmente em ambientes corporativos.

Em 2020, o caso do denunciante Julian Assange destacou os riscos enfrentados por aqueles que expõem informações sensíveis.

  • Efetividade dos canais de denúncia

A existência de canais de denúncia seguros e acessíveis é uma condição crucial para que as leis sejam efetivas.

No entanto, em muitos países, estes canais são insuficientemente desenvolvidos ou mal geridos.

Um exemplo é a Índia, onde as leis de proteção são fracas e a criação de mecanismos de denúncia carece de investimentos e estruturação.

  • Proteção contra retaliação psicológica

Além de ações legais ou demissões, muitos denunciantes enfrentam retaliação psicológica e emocional.

Assédio moral, exclusão social e difamação – são algumas das formas de retaliação mais difíceis de combater.

A legislação precisa evoluir para abranger não apenas as consequências materiais, mas também as formas menos tangíveis de intimidação.

  • Consciencialização e educação

Em vários países, a falta de consciencialização sobre os direitos e proteções dos denunciantes impede que as leis sejam aplicadas de maneira eficaz.

Em muitas organizações, há uma cultura de medo ou desconhecimento, o que limita o número de denúncias feitas por funcionários.

A educação contínua sobre a importância do papel do denunciante, aliada a campanhas de consciencialização, pode contribuir significativamente para a mudança deste cenário.

  • Melhores práticas globais

Embora os desafios sejam significativos, existem boas práticas implementadas em diferentes países que podem servir de exemplo para outras jurisdições.

  • Incentivos financeiros

Como observado nos EUA, oferecer incentivos financeiros aos denunciantes pode aumentar significativamente o número de denúncias, especialmente em setores onde a fraude e a corrupção são endêmicas.

Este tipo de incentivo tem sido considerado um dos principais motivos para o sucesso de programas como o da SEC.

  • Proteção do anonimato

Garantir o anonimato do denunciante é uma das maneiras mais eficazes de encorajá-los a reportar irregularidades.

Muitos países já implementam mecanismos de denúncia anónima, mas a gestão inadequada dos dados dos denunciantes ainda representa um risco em alguns locais.

As melhores práticas incluem o uso de plataformas digitais seguras, que garantem a confidencialidade e/ou o anonimato da identidade dos denunciantes.

  • Supervisão independente

Em alguns países, como no Reino Unido, existem organismos independentes que supervisionam as denúncias e garantem que sejam devidamente investigadas.

Estes organismos, ao serem imparciais, reforçam a confiança no sistema e asseguram que o denunciante tenha um processo justo.

Conclusão

A proteção ao denunciante é uma peça fundamental para o combate à corrupção e outras práticas ilícitas.

Apesar dos países em redor do mundo estejam a avançar nas suas legislações, tanto a implementação como a supervisão dessas leis continuam a ser os maiores desafios.

É necessário continuar esta evolução, aprendendo com as melhores práticas e adaptando as legislações às necessidades locais para garantir um ambiente seguro e transparente, para aqueles que têm a coragem de denunciar e que cada vez mais se sintam com vontade para tal e assim cresça o volume de denúncias e de denunciantes.

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